janeiro 08, 2004

Adília Lopes


Excertos da crónica Mental e Mentol de Adília Lopes in Pública a 01.Julho.2002.
(...) Quando, aos 20 anos, quase 21, consultei o Dr. Coimbra de Matos, psicanalista, estava muito magra, não dormia quase nada e o período tinha deixado de aparecer há meses. O Dr. Coimbra de Matos achou-me muito deprimida, disse-me que eu estava quase a chorar. (...)


(...) Depois de jantar, fui a casa das Botelhos. As Botelhos eram minhas vizinhas, a Zé e a Ana Maria. A Zé tinha sido minha colega de carteira durante os oito anos do ensino secundário, mas nunca tinha sido minha amiga. Disse-lhes que tinha de fazer psicoterapia. A Ana Maria, irmã da Zé, com menos quatro anos do que eu, disse logo: "Pois, tu sempre foste maluca, besuntavas as bonecas com creme Nivea". As Botelhos, penso eu, achavam-se mais inteligentes, mais bonitas e mais nobres do que eu e tinham inveja de mim por eu conseguir melhores notas e por os meus pais me darem mais dinheiro do que os pais delas lhes davam. Aproveitaram para me gozar, achincalhar e abandonar. (...)


(...) Há um preconceito em relação à doença mental que não há em relação às outras doenças. É para ajudar a desfazer esse preconceito que escrevo isto. Mas estou afinal no mesmo barco que os doentes do Júlio de Matos que pedem esmola na rua para tabaco e café. (...)


... quando torno público que tenho uma doença mental, sei que é muito mais fácil para mim fazê-lo do que, por exemplo, para uma educadora de infância ou para um polícia. Ser poetisa, ser artista, é, neste caso, um escudo visível que me protege. Pelo menos, parece-me que é assim. Mas ser poetisa não me dá dinheiro para viver e é aí que ser poetisa e ter uma doença mental põe problemas. Por isso não é assim tão fácil, para mim, assumir publicamente que tenho uma doença mental. (...)

Publicado por Drocas em 10:22 PM | Comentários (0) | TrackBack

Poema

Portugueses:

gente ousada

gente usada


Brandos usos:

abusos grandes

e pequenos


in Florbela Espanca espanca (1999) de Adília Lopes.

Publicado por Drocas em 09:54 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 07, 2004

Pedra no Sapato

Criei Pedra no Sapato (ou Poema do Engate, como eu lhe costumo chamar) para retratar o carácter cíclico e viciado de um contacto imediato entre dois jovens homossexuais. Engate... enriquecido por um envolvimento afectivo-intelectual rápido... mas ainda Engate! O encontro efémero, marcante na esfera de um momento, que falha e desilude os dois jovens.

Escrevi este poema em Setembro de 1999, com 21 anos de idade.



Sérgio Reis
Pedra no Sapato


Pedra no sapato,

Esse carrapato de granito

Cravado nas solas do peito.

Faz inchar os pés do rapaz.

Não o deixa em paz!


Ainda há pouco esteve a chorar...

Não porque tivesse amado,

Mas porque tinha gostado

De sentir o sangue acelerado,

Frenético e efervescente,

A estirar-lhe as veias

E esguichando num vácuo que era tudo,

Agora nas tripas do vampiro

Que já sugou e não quer devolver.


Ainda há pouco esteve a chorar...

Não porque tivesse amado,

Mas porque teria gostado

De continuar a gostar,

E de amar, se pudesse, talvez um dia...

Já nem sabe bem porque chorou...

Os pardais logo se espantaram

Com o vibrar das hortaliças,

E se escaparam,

Voláteis de não ver,

De não tocar,

De não ter agora diante de si

Aquela outra alma

Que só do passado foi gémea.


Já nem sabe bem porque chorou...

Contempla agora os olhos do espelho

Que são iguais aos seus.

Ainda se conservam molhados!

Parecem ter ficado mais belos

Com o húmido brilho vítreo,

O fundo marmoreado em rosa suave,

O narcisismo da convexidade das pupilas,

As pestanas bem longas e negras,

Germinadas pela rega das lágrimas,

E mais algumas pinceladas de clorofila

Sobre a escura íris latina.


E lá está a pedra no sapato,

Esse carrapato de granito

Que é desejo aceso de não estar só,

De descongelar o sangue entubado nas veias,

De assassinar as masturbações obrigatórias,

De preencher os moldes das fantasias ocultas

Com carne maciça e osso sólido.


Ele não gostou de chorar.

Ele não gosta de ter os pés inchados.

Ele não quer voltar a chorar!

Em celibatários projectos decide:

Nem a pedra, nem ninguém!

Mas a pedra ninfomaníaca do sapato,

Esse guarda canino, fiel amigo,

Não o deixa sozinho

Enquanto ele estiver sem ninguém.

Ou a pedra, ou alguém!

Não o quer deixar com as mãos a abanar,

Fundas de não ter.


Ele não tem alternativa!

Terá que arrancar esse parasita pétreo,

Fossilizado no peito em meses, semanas ou dias,

Que continua a consumir o rapaz por dentro.

Tenta enganar os seus próprios botões azuis.

Segreda-lhes que não irá procurar,

Pois só quer ser encontrado... (Mentiras!).


Ainda não manobra a cana de pesca.

Lança-se então na rede de nylon,

Feita de intersecções sem conta

Onde já estão os outros peixes,

Exibidos em acrobáticas contorções.

Muito antes de serem encontrados,

Todos procuram!

Procuram na trama confusa da seda dos engates.

Ele sente nas veias aquelas teias de ceias,

E as meias mais cheias de pedras de sapato.


Fitam-se pela primeiríssima vez.

Dois fios de olhar dão um nó cego de ver.

Acham-se mutuamente belos.

As idades generosas ainda mantêm

A pele de lycra bem esticada no corpo.

O rapaz esboça dois terços de sorriso

E espera até que outrém se decida a completá-lo.

Tal acontece por sinal.

Ele arrisca-se na aproximação.

Puxa-se a si próprio...

Receia a paragem crua da roleta.

Rejeita o vermelho e o preto,

Porque prefere apostar em verde garrido.

Esbarram-se então dois Olás simultâneos,

Cada um pronunciado com três enormes letras

Dactilografadas no cordão umbilical da conversa.

Agora puxam-no mais uns centímetros

E revelam seus nomes vulgares.

A saliva não deve abundar...

Poupam-na na conversa que ainda só gatinhava

E logo a empenham num longo beijo mordente,

Molhado em saliva pura, jovem, límpida,

Nutrida de frescura e insipidez de água de nobre fonte.

O coração cai-lhe vertiginosamente aos pés.

A pedra sente a pancada no sapato

E deixa o rapaz a sós com seus erógenos prazeres.


As duas almas lá vão tirar a prova dos nove.

Fecham o cortinado cinza às lentes do mundo.

Deitam-se sobre as costas do colchão calado.

Agrafam intensamente os quatro lábios

Que se engolem uns aos outros.

Palpam espaços abertos de vestuário,

Apalpam tecidos impregnados de fumo

Para adivinhar formas escondidas.

Na meia escuridão ingrata

Caçam e abrem fechos, botões e fivelas.

Restam apenas as peças mais íntimas

Em aderência perfeita aos relevos

E quase rasgadas pelo entusiasmo

Que ferve dentro delas.

A língua decide rastejar sobre a coluna dorsal de seu par.

Percorre todo o corpo em meandros.

Entranha as suas pupilas nos poros

E prova o suor destilado da incontrolável excitação.

Esgotam-se agora os trapos...

Estão nus em carne fresca e tesa.

Apenas conservam moléculas de perfumes caros

A patinar sobre seus suaves tegumentos.

A essência dessas moléculas falsas,

A textura da seda bronzeada,

O paladar do sal transpirado,

Exibem essa força da Natureza que condensa

A luz, o céu, a terra e a água

Na receita da perfeição cutânea.


O rapaz quer devorar-lhe cada quadrado de pele,

Cada ângulo, cada aresta,

Cada depressão, cada protuberância...

Abraçam-se, beijam-se,

Sufocam-se, estrangulam-se...

Tentam desesperadamente a fusão

Na híbrida sensação de dor e prazer do encaixe.

Faz-se a dança ao ritmo do ranger irritante do estrado

Que a própria dança produz.

Os rostos estão a encarnar,

Os olhos a encarniçar,

As nuvens a encarneirar...

Todas as linhas da espada erguida

Percorrem agora velozmente o aço,

Convergem e esbarram-se no pico da lâmina

Que, por instantes, corta a corda que suspende o espaço e o tempo.

Neste momento, nada mais parece existir

Para além dessa sopa de estrelas, contracções e jactos,

A pirotecnia orgástica da explosão seminal!


Estão exaustos; dormem um pouco...

É tarde e o rapaz deve voltar para a sua casa.

Trocam carícias,

Projectam novos encontros para amanhã

Para viver mais vezes aquela fusão perfeita

E penteiam ternos sorrisos junto à porta entreaberta.



Montam-se nas costas do colchão mais uma dúzia de vezes.

Matam o seu tempo em conversas melódicas.

Gostam um do outro - gostam simplesmente.

Pretendem amar-se no futuro.

Querem também matar o embrião do vício da pesca,

Mas não conseguem...!!!

A chave não tem dentes polidos

E teima em não abrir as portas douradas do amor.

Depressa se enroscam, mais uma vez,

Naquela rede dos mil peixes,

Em música escrita com poligamia de quiálteras.

Magoam-se...

Não se dão ao trabalho de curar as feridas,

De edificar pontes e de preencher as fendas.

Logo se descobrem, se desmentem e se despedem.

Despedem-se... na digestão do adeus eterno.

É fim obtuso que não sorri como em conto de fadas.

Divergem no pranto de seus passos.

Disparam algumas lágrimas...


Ainda há pouco esteve a chorar...

Agora já nem sabe bem porque chorou...


Lá voltou outra vez a pedra para o sapato,

Esse carrapato de granito

Cravado nas solas do peito.

Faz inchar os pés do rapaz.

Não o deixa em paz!

Publicado por Drocas em 01:32 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 06, 2004

Bom ar

Já percebi as razões do aumento astronómico do preço do nosso bem mais português: o pão. No fundo trata-se de uma ajuda, a intenção é louvável e muito saudável. Vejamos, o português é espertíssimo e consegue prever com uma semana de antecedência as notícias que só hoje vêm a público. Então não é que, caridosamente e numa atitude preventiva, profilática como dizem os senhores doutores, o preço do pão aumentou para prevenir a obesidade. É enternecedor como estas pessoas se preocupam com a saúde e o bem-estar portugueses. Ao tomarem conhecimento, por clarividência, que segundo a Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine, os jovens portugueses estão entre os mais obesos do mundo, decidiram impedir rapidamente o acesso tão facilitado ao pão.


E é bonito assistir à humildade da Associação do Comércio e da Indústria de Panificação que negou hoje a existência de um aumento generalizado de 35 por cento do preço do pão, mas admitiu que alguns industriais do sector efectuaram actualizações.
Querem fazer-nos acreditar que não foi um aumento grande, foi um pequeno ajuste para possibilitar a continuação da actividade economicamente enfraquecida dos fabricantes de pão.


Nós não acreditamos. Como é possível que um bem consumido transversalmente por todos os sectores da sociedade não possa estar na base da obesidade? Claro que está, o pão engorda, dizem os entendidos. Presto, assim, uma homenagem justa a estes industriais que, em seu próprio prejuízo, possibilitam a redução do consumo de pão. Eles contribuem, deste modo, para a re-aprendizagem da gestão económica familiar (tão esquecida desde que nos privaram do nosso pai/marido Salazar), para o consumo moderado de alimentos prejudiciais à saúde, como o pão e para o reequilíbrio da economia que tanto tem abastecido os mais podes e empobrecido os mais abastados.


Desejo fortemente que esta seja uma medida a repetir ao longo de 2004 por outros industriais de bens como o pão, por exemplo, o leite. Portugal precisa. Não vamos deixar que a retoma económica prevista alimente o consumo desenfreado de bens essenciais, com a consequente subida da inflacção, o consequente endividamento familiar, o aumento da dívida externa e por aí fora. Estou convosco. Um grande bem-haja.

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janeiro 05, 2004

Herman SIC

Ontem na parte final do Herman Sic, antes da atribuição dos Prémios Pilita, surgiu uma conversa subtil que não deixei de notar. Pilita e Pureza discutiam preferências entre homens mais velhos e mais novos. Ao que Idália diz qualquer coisa deste género: "Eu acho que os piquenos têm sempre uma vantagem em relação aos homens mais velhos... é que as crianças não mentem, criança não mente." Escusado será dizer que Nelo estava em silêncio.


Pois é Nelo, as crianças mentem e mentem muito. E quando são abusadas sexualmente, muitas vezes, calam-se e mentem também, porque não revelam o seu segredo que guardam em culpa e vergonha. Qual é a ideia aqui? Será insinuar que se elas ganhavam dinheiro em troca de favores sexuais também poderão estar a fazê-lo em troca de favores jurídicos? É que se é essa a ideia, penso que o Herman atira ao alvo errado. Insinuar que as crianças deste processo estão a mentir é uma atitude irresponsável, desinformada e cobarde. Oh Herman, defenda-se por meios legítimos, se não tem nada a temer não acuse quem já sofreu bastante. É sempre mais fácil acusar quem, frágil, não se pode defender, não é?

Publicado por Drocas em 02:10 PM | Comentários (0) | TrackBack

Homo-adopção e Homo-parentalidade

A propósito das conversas sobre adopção por casais de lésbicas e gays no tro.blog.dita, coloco aqui uma resposta que tive que dar por escrito a alguém com dúvidas. Fica aqui a pergunta e a resposta na esperança de trazer alguma luz sobre o tema.


Pergunta: Muita vezes dou por mim a pensar quais as causas da homossexualidade: serão genéticas, exteriores ou resultantes da interacção entre ambas? Sei que não há ainda explicação científica para tal problemática mas isto leva-me a pensar numa outra coisa: será sensata a adopção de crianças por casais homossexuais?


Segundo as teorias freudianas, é necessário haver uma mãe para que se passe pelo complexo de Édipo e para que este seja resolvido. A existência de duas figuras masculinas não trará problemas ao desenvolvimento de uma criança?

Género masculino, 19 anos, Lisboa


Resposta:


As questões que nos coloca, e as suas respostas, caracterizam-se por alguma complexidade. Tentaremos responder por partes:


1. Quanto à orientação sexual, é necessário defini-la, assim, orientação sexual é um componente da identidade de cada pessoa, a qual é composta por muitos outros componentes, como a cultura, a etnia, o género e as características de personalidade. A orientação sexual é uma atracção emocional, romântica, sexual ou afectiva que uma pessoa sente face a outra pessoa. Define-se ao longo de um continuum. Por outras palavras, uma pessoa não tem que ser exclusivamente homossexual ou heterossexual, mas pode sentir níveis variáveis de atracção por ambos os géneros. A orientação sexual desenvolve-se ao longo do ciclo de vida ¿ diferentes pessoas reconhecem em fases diferentes das suas vidas que são heterossexuais, gays, lésbicas ou bissexuais.


Desconhecem-se as causas da orientação sexual, isto é, não se sabe ao certo o que leva cada pessoa a escolher parceiros sexuais do mesmo género ou do género oposto. Existem vários estudos e teorias que atribuem pesos diferentes às influências biológicas e às influências sociais. No entanto, é consensual entre a comunidade científica, que existe uma variedade grande de influências que, a partir do período pré-natal, pode influenciar o desenvolvimento numa direcção ou noutra. O que se sabe com certeza é que a orientação sexual não é uma opção, ou seja, ninguém escolhe se quer ser gay ou heterossexual. Por exemplo, se um homem que sempre se sentiu atraído por mulheres, sentir desejo sexual por outro homem, esse desejo mantém-se independentemente de ele o aceitar ou rejeitar, de se sentir confortável ou desconfortável face a esse desejo.


2. Quanto à adopção de crianças por pessoas gays, lésbicas ou bissexuais ou por casais com membros do mesmo género, a sua dúvida pode ser cientificamente esclarecia com rigor.


a) a maioria dos teóricos psicanalistas acreditam que a homossexualidade é função de relacionamentos conturbados entre pais e filhos. Os estudos empíricos sobre a influência dos relacionamentos pais-filhos no desenvolvimento das identidades gay e lésbica forneceram resultados que não nos permitem retirar conclusões. Portanto, a teoria freudiana que refere não é apoiada pela investigação científica.


b) Sabe-se que as crianças que têm dois pais, independentemente do género e orientação sexual dos mesmos, são mais bem sucedidas que crianças com apenas um pai.


c) Ao longo de três décadas de investigação científica foi demonstrado sistematicamente que crianças criadas por pais gays ou lésbicas exibem o mesmo nível de funcionamento emocional, cognitivo, social e sexual que crianças criadas por pais heterossexuais. O desenvolvimento óptimo das crianças não está relacionado com a orientação sexual dos pais, mas com relacionamentos estáveis estabelecidos com adultos carinhosos e empenhados.


A adopção de crianças por casais homossexuais e a criação de filhos biológicos por pessoas com orientação homossexual ou bissexual não só é sensata, como pergunta, mas é também recomendada por várias associações médicas e psicológicas americanas, entre elas a American Psychological Association em 1995, a American Academy of Pediatrics em Fevereiro de 2002 e a American Psychiatric Association, em Novembro de 2002.


Aproveitamos a sua questão para clarificar e informar relativamente às quatro preocupações principais que existem face à adopção de crianças por pessoas homossexuais:


A - O medo que crianças criadas por pessoas gays ou lésbicas se tornem, elas próprias, gays e lésbicas ou que exibam comportamentos do género oposto.


Factos: Estudos com filhos de mães lésbicas indicam um desenvolvimento normal da identidade de género nestas crianças, ou seja, em geral, não há problemas quanto à identificação destas crianças com mulheres ou com homens: elas não desejam pertencer ao sexo oposto. Estas crianças também preferem brinquedos e fazem escolhas de actividades, interesses e ocupações adequadas às do seu género, de acordo com a cultura em que vivem. Sabe-se também que as filhas de lésbicas demostram, em geral, comportamentos mais femininos que as filhas de mulheres heterossexuais. A grande maioria dos filhos e filhas de pais gays e mães lésbicas descrevem-se como heterossexuais.


B - O medo que crianças criadas por pessoas gays ou lésbicas desenvolvam mais problemas emocionais, comportamentais ou de saúde mental que outras crianças que vivem em lares heterossexuais.


Factos: Não há diferenças entre crianças que vivam com famílias heterossexuais e crianças que cresçam em famílias homossexuais quanto a: avaliações psiquiátricas, individualização, avaliações de problemas comportamentais, personalidade, conceito de si, locus de controlo, julgamento moral nem inteligência. A crença que filhos de gays e lésbicas sofrem de défices no desenvolvimento pessoal não tem fundamento científico.


C - O medo que crianças criadas por pessoas gays ou lésbicas experimentem dificuldades nos relacionamentos sociais devido à orientação sexual dos pais.


Factos: Os estudos mostram relatos de crianças e pais que sugerem um desenvolvimento normal das relações entre pares, isto é, os filhos e filhas de gays e lésbicas em idade escolar têm melhores amigos do mesmo género e, predominantemente, grupos de amigos do mesmo género. Sabe-se também que as filhas e filhos de lésbicas e gays têm contacto com amigos adultos dos pais, e que estes têm orientações homossexuais, bissexuais e heterossexuais.


D - O medo que crianças que vivam com pais gays e lésbicas tenham maior probabilidade de sofrer abuso sexual por parte dos pais ou de amigos ou conhecidos dos pais.


Factos: A maioria dos adultos que cometem abuso sexual sobre menores é do sexo masculino. O abuso sexual sobre crianças perpetrado por mulheres é extremamente raro. A vasta maioria dos casos de abuso sexual sobre crianças envolve um homem adulto e uma criança do sexo feminino. O medo de abuso sexual por pais gays e lésbicas não tem nenhum fundamento científico.

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janeiro 04, 2004

Crime vs. Honra

Depois de ter lido a notícia do jornalista Paulo Reis no semanário O Independente e de ter lido o post no acanto, apetece-me tecer alguns comentários.


Quando alguém escolhe um percurso de vida público já sabe que a difamação e a calúnia fazem parte do pacote. Há sempre quem goste de nós, quem nos odeie, quem sinta inveja e quem leve às últimas consequências os seus interesses em detrimento dos nossos. Muitos gays sabem que é comum ouvir outros gays indagar: sabias que A, B ou C é gay? Sempre fui contra este tipo de insinuações e penso que devo cuidado no tratamento de pessoas que se expõem publicamente. Até porque, muitas vezes, naturalmente, essas difamações não passam de boatos, de verbalizações do desejo do difamador. Exemplo disso foi, no Verão passado, ouvir o seguinte da boca de uma pessoa que considerava, e considero, idónea: Pedro, já sabes? É oficial! O João Soares abandonou o lar e foi viver com o amante belga! Pois é, como a maioria de nós saberá, o João Soares não é oficialmente gay e vive com a companheira belga.


A comunidade gay foi, no início do processo Casa Pia, alvo de tentativas de culpabilização face ao fenómeno do abuso sexual no interesse de desviar as atenções das figuras públicas implicadas.


Se penso que a manchete do semanário em questão é uma tentativa de desviar as atenções dos acusados pelo Ministério Público, penso também que, depois destas notícias terem vindo (inevitavelmente?) e público, os implicados deveriam ter a oportunidade de defender-se. Este tipo de publicidade têm consequências negativas na vida política, social, profissional, familiar e quem sabe, até na vida sexual dos visados. Essas consequências são tão mais graves quanto maior for a responsabilidade das ocupações públicas que essas pessoas têm. De acordo com a notícia, dois dos não acusados tencionam meter uma acção em tribunal contra as pessoas que os nomearam no processo. Esta acção é insuficiente, não só porque não faz esquecer a associação ao crime de abuso sexual, mas também porque não prova que essas pessoas, de facto, não cometeram o crime.


Por estas razões e outras o que está aqui em causa, meu caro acanto, não é a honra das pessoas, mas a impossibilidade judicial delas se defenderem dos crimes prescritos dos quais são acusados na praça pública. Eu posso honrar a minha família, o cargo para o qual fui eleito, a minha ocupação profissional, os meus amigos, o meu clube e a mim próprio, e, mesmo assim, passar uns fins de semana divertidos na companhia de alguns amigos a cometer os crimes mais cobardes. Se estas notícias não dizem tudo sobre mim, penso que é ilegítimo pensar que a crença pública sobre a minha honra o dirá. É astronomicamente ridículo pensar que esta ou aquela pessoa não faz isto ou aquilo na sua privacidade porque a consideramos honrada. Ou, como afirmava Miguel Esteves Cardoso face a detenção de Carlos Cruz [a 01.02.03!], porque pensamos que ele não pode ser pedófilo já que qualquer pessoa que olhe para o Carlos vê logo que ele não têm cara de pedófilo. Sem mais comentários...


A lei portuguesa não permite que estas pessoas defendam a ideia pública de honra que estava a si associada. Nem permite que os sobreviventes que se queixaram possam ver feita justiça face ao crime que sofreram. Portanto, pelos acusados e pelos sobreviventes, o prazo de prescrição destes crimes deve ser alargado, urgentemente. O bem da justiça está limitado por fronteiras temporais, porque se eu abusei sexualmente de uma criança de 10 anos há 10 anos, sou menos criminoso que alguém que cometeu o mesmo crime há 2 anos. Pior, eu deixo de ser criminoso!

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janeiro 03, 2004

Guedes

Prometi a mim mesmo que não colocava imagens de homens despidos neste blog. Queria escrever um blog sério e penso que as imagens de homens nus são uma distracção. Mas entretanto mudei de ideias depois de uma conversa sobre nudez e xxx-matters com o meu amigo belittlepilgrim no msn. Encontrei no computador estas fotos de Pedro e Ricardo Guedes, sim os irmãos Guedes como Nosso Senhor os ofereceu ao mundo. É fotografia de moda. E afinal onde é que se marca a tracejado essa fronteira entre a nudez artística e a nudez pornográfica?


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janeiro 02, 2004

Operação mal sucedida deixou-o gay

Li agora no 365gay.com a seguinte notícia:

(Londres) Um homem de Leeds afirma que entrou no hospital para uma cirurgia ao coração e saiu de lá gay. O doente, cujo nome não foi revelado, entrou na Leeds General Infirmary para uma intervenção cardíaca relacionada com um by-pass. Durante a cirurgia, os médicos seccionaram uma veia grande na sua perna de forma a substituir uma artéria bloqueada no tórax.


Para retirar a veia, os médicos realizaram uma incisão na sua perna, mas não tiveram em consideração a tatuagem que o homem tinha nesse local, refere o jornal sensacionalista londrino Daily Mirror.


A tatuagem dizia: I love women.


Quando recuperou da anestesia, depois da bem sucedida intervenção cardíaca, notou a cicatriz na perna. Quando os cirurgiões suturaram a perna apagaram inadvertidamente duas letras da tatuagem. Esta agora afirma: I love men!


O jornal revela que o homem ia tendo outro ataque cardíaco. Já consultou advogados e admite processar o hospital e os médicos envolvidos na cirurgia. Afirma que sente demasiada vergonha para sair à rua em calções. A Leeds General Infirmary admite ter cometido um erro e o British Medical Journal emitiu um aviso aos médicos que relembra os cuidados a ter quando se sutura pele tatuada.


Comentários:


1. Alguém que escreve uma coisa daquelas na perna precisa mesmo que os outros assumam que é heterossexual. Por isso, não admira que fique tão zangado quando a tatuagem afirma exactamente o que ele não quer que pensem de si. Já agora, numa sociedade heterossexista como a nossa, alguém assume outra coisa à partida a não ser que seja evidente? Para mim, por exemplo, um sinal de evidência que aquilo lá por dentro andava um bocado baralhado seria exactamente a dita tatuagem na perna, a original.


2. E depois, fazer um alarido público destes por causa de uma porcaria daquelas. Este homem dá mesmo importência, desculpem importância à opinião alheia sobre sua sexualidade. Eu cá acho que uma pessoa bem satisfeita e coma gaveta da sexualidade arrumada não têm necessidades deste tipo.


3. Será que ele sabe que podem apagar-lhe aquele disparate da perna com um laser? Na volta já não quer ver médicos à frente tão cedo. Ou então, com a acção em tribunal, espera que os médicos desta cirurgia lhe paguem a próxima.


4. Se é estranho que os médicos estejam a marimbar-se para a tatuagem, mais estranho é que o doente depois da cirurgia possa observar a sutura. Será que o Daily Mirror sabe o que é um penso? Já parece a TVI...


5. O erro médico pode até ser uma ajuda divina para este senhor escutar melhor o que o seu coração pede e esquecer um pouco os outros, ou, neste caso, as outras.


6. Are there anymore?

Publicado por Drocas em 06:59 PM | Comentários (0) | TrackBack

A room with a view

Pouco antes do final de 2003, fotografei o pôr do sol da janela do meu quarto. Ficou assim...





...e, sem zoom, assim...



Vamos lá ver se hoje há menos nuvens. Depois mostro!

Publicado por Drocas em 03:54 PM | Comentários (0) | TrackBack

Miss Bagdad

Dava uma vista de olhos pelo blete e encontrei a letra de uma música dos U2 com o Luciano Pavarotti, Miss Sarajevo. Estranho é que nesse post apenas apareça uma parte da letra. Vou acrescentar a minha parte preferida, aquela cantada pelo Pavarotti.


Dici che il fiume

Trova la via al mare

E come il fiume

Giungerai a me

Oltre i confini

E le terre assetate

Dici che come fiume

Come fiume...

L'amore giungerà

L'amore...


E non so più pregare

E nell'amore non so più sperare

E quell'amore non so più aspettare


Tradução


[Dizem que um rio

encontra o seu caminho até ao mar

E como um rio

chegarás a mim

Para lá das margens

e das areias ávidas

Dizem que como um rio

como um rio...

o amor chegará

O amor...


E já não consigo rezar

e, apaixonado, já não consigo ter esperança

e já não consigo esperar pelo amor.]


Praia do Portinho da Arrábida, hoje mesmo. [copyright Pedro Correia]

Publicado por Drocas em 03:29 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 01, 2004

Fedra

Estava a remexer numas cassetes VHS antigas que tinha em casa da minha mãe, quando descobri alguns bailados e entrevistas de Martha Graham (referir-me-ei a ela noutro post). Já nem me lembrava que as tinha e foi com grande alegria que revi algumas dessas obras de arte que tanto me impressionavam quando era adolescente.


Um dos bailados, Phaedra, chamou-me a atenção pela actualidade da intriga. Fedra é uma personagem de uma das mais conhecidas tragédias gregas de Eurípides, Hippolytus. Esta senhora, filha de monarcas da Grécia Antiga, casou com Teseus e governou Antenas como rainha. Mas atenção que Fedra não era uma desocupada, ela geria a toda a corte e tinha a seu cargo a construção dos templos, o que, convenhamos, dava um trabalhão.


Como a maioria das tragédias antigas, Hippolytus narra lendas mediterrâneas e foi encontrada bocadito aqui bocadito ali, sendo que daquilo que Eurípides escreveu foram feitas muitas versões. Vou contar resumidamente a minha preferida. Hipólito, o personagem, era filho de Teseus, enteado de Fedra portanto, e lutava nas guerras longe de casa. Depois de ter morto pessoas importantes, regressou a casa do seu pai para descansar e proteger-se de possíveis vinganças. Ora, Hipólito treinava nu todos os dias numa arena sob o olhar atento e lânguido de Fedra. Tempos passaram e Fedra sentia-se cada vez mais apaixonada por Hipólito ao ponto de adoecer e de chamar uma enfermeira. Esta enfermeira, sabendo da causa da doença, revelou a Hipólito a paixão de Fedra. Hipólito, como bom gay misógino que era, sentiu-se enojado com o desejo ardente da madrasta e rejeitou-a. Apesar de saber que os próprios Deuses mantinham relações incestuosas entre si, Hipólito considerou este amor mais um argumento para fortalecer a sua crença que as mulheres são a praga que acabará com a espécie humana. Também acreditava que os homens deviam comprar os filhos aos Deuses a troco de ouro, o que, para mim, é a desculpa perfeita para um gay da Grécia Antiga invocar, de forma a recusar toda e qualquer actividade sexual com mulheres.




Como pode ver-se na fotografia [copyright Maicar Forlag] da obra Phèdre et Hippolyte (1802) de Pierre-Narcisse Guérin (1774-1883), Hipólito recusa Fedra que escuta a coscuvilhice da enfermeira, na presença de Teseus.


A história acaba mal, como é de esperar. Pelas mãos das Deusas Ártemis e Afrodite, Fedra enforca-se com a culpa e a vergonha do seu desejo, sem antes deixar uma carta que responsabiliza Hipólito pela sua morte, com base numa falsa tentativa de violação. Teseus confronta o filho que nega o crime. Quando se dirige a casa, furioso com a acusação caluniosa da falecida madrasta, Hipólito sofre um acidente de viação e morre.


Quantos de nós, gays, não fomos alvo do amor de mulheres? E quantos de nós não o recusámos ofendidos e agoniados com a possibilidade de envolvimento sexual? De facto, o que me ofende é a ideia vigente que une com unhas e dentes um homem a uma mulher para todo o sempre num amor crescente e perfeito. E o que me agonia é a decisão que muitos homens e mulheres tomaram ao agir de acordo com essa mesma regra, sendo que essa união só pode resultar num desamor castrador e deprimente.


Quem é que não conhece pelo menos um gay que odeie mulheres? A misoginia não é um problema homossexual. Abrange todas as orientações sexuais e géneros também, curiosamente. Mas especificamente em relação aos gays, será a misoginia uma questão territorial? Eu creio que sim. Penso que muitos gays misóginos acreditam que competem com mulheres por homens, independentemente da orientação sexual dos mesmos. É o pensamento mágico dos gays, ao acreditarem que heterossexuais poderão preferi-los em desfavor das mulheres. Ou será que até têm razão e que a decisão da união está no lado de quem caça e não de quem se deixa caçar?

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Há algum tempo que tenho este blog e nunca lhe dei muita atenção. O que é estranho, pois tenho dado alguma atenção aos blogs da vizinhança blogaysférica portuguesa e não só. Então, para 2004, e depois de muito reflectir, decidi dar-lhe uma nova vida. Penso que é menos cobarde comentar posts se também tiver alguns para serem comentados. Para além disso, muitas vezes, tenho opiniões que me apetece partilhar com quem quiser lê-las. E a terceira razão que me levou a ressuscitar o blog (não que ele alguma vez tenha estado vivo... era nascido, mas estava morto) passa pela presença de pessoas que muito estimo e admiro, que conheço pessoalmente na blogosfera, e com as quais raramente tenho oportunidades de trocar ideias. Sendo assim, por aqui me lanço com o meu olhar.

Publicado por Drocas em 05:46 PM | Comentários (0) | TrackBack